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"Os Gaudérios é um grupo de projeção artística que se propõe a fazer um trabalho sério. Prova disso são suas expressivas participações em diversos eventos, bem como seu tempo de existência, que, em abril de 2007 o Grupo completa 30ANOS. A idéia de ver o costume do nosso povo como algo a ser preservado passa pela concepção de , canto, dança, e sapateios.

 
 
POESIAS GAÙCHAS

GAUDÉRIO | SEM DIPLOMA | MEMÓRIA PARA UM MENINO NO ANO DOIS MIL | GAÚCHO | HERANÇA | A DOMA DO POTRO BAIO | O MEU CAVALO CRIOULO | CHIMARRÃO | APENAS SAUDADES | DEIXANDO O PAGO | NO BOLICHO

GAUDÉRIO
Autor: Gonçalves Chaves Calixto(Cabeleira)

Estes versos foram feitos no dia, 21 de abril de 1980. Em homenagem ao Grupo .
"GAUDÉRIO" é índio que andeja
Daquí, pra alí na querência,
Desfrutando a convivência
Com todo o tipo de gente...
É o Xirú quebra e valente,
Que nunca teve parada,
Vive a repontar na estrada
O passado prô presente.

É o cuera que vive solto,
Tal e qual o pensamento...
É o sopro forte do vento
Que na cerca bodoneia,
Enquanto o taura sesteia
Deitado em cima da encilha...
É o índio em pé na coxilha,
Disposto prá uma peleia.

"GAUDÉRIO" é a alma campeira
Que andou de estância em estância,
É o piá que não teve infância
Mas não se queixa da sorte...
Cresceu sem ligar prá morte,
Seguindo o próprio destino...
É o solitário... é o teatino,
Vagando sempre sem norte.
"GAUDÉRIO" é o peão andarilho,
é o andante... é o caminheiro...
É o cruzador Missioneiro,
Que a passos lento avança...
É o choro de uma criança
Porque a "chupeta" perdeu...
E abandonado cresceu
Sem nunca "perdê" a esperança.

"GAUDÉRIO" é o grito de alerta
Do Centauro na vigia...
Resto de raça bravia
Lutando contra a extinção...
Relincho de redomão,
Num rodeio a campo fora,
Querendo fugir da espora
Que o taura traz no "Garrão"
É o chuleador sapateando
Na velha rinha da Chula,
Que em cada passo que pula,
Parece um rei sem ter trono
Cada vez com mais entono...
Pisando firme no chão.
Gritando a todo pulmão,
Que esta querência tem dono.
É a dança da chimarrita
É o pesinho e tatú novo,
É a estirpe nova de um povo
Que não teve arranchamento...
É da cordeona o lamento,
Na milonguita que entôa
GAUDÉRIO É A PRÓPRIA PESSOA
DE UM ZANILDO NASCIMENTO.

"GAUDÉRIO" é o estilo guapo,
Do ALMIR e ARQUELAU...
é a cara de índio mau,
Do quebra CHICO GUARANHA,
é o estilo da campanha,
Do CLÁUDIO e o GASOLINA...
É o próprio encanto da china
Nuns passos de Meia Canha.

É o som da gaita manheira,
Na hora que o WILSON toca
É um coisa que provoca,
Qualquer taura sem retovo...
Embretado aqui no povo,
Vive num sonho profundo
Querendo fugir do mundo,
Prá ser Gaudério de novo.

"GAUDÉRIO" enfim é a semente...
Que Deus semeou na querência,
Para cruzar a existência
Cantando lendas...mistérios...
E repontando índios sérios,
Nos deu a prova mais viva..
Misturando "ARTE NATIVA"
Fez um grupo de "GAUDÉRIOS"

E hoje comemorando
Seus 3 anos já vivido...
Eu lhes fico agradescido,
Transmitindo meu afago...
Este abraço que vos trago,
E por tudo que nos deram...
Por tudo que já fizeram,
Divulgando nosso Pago.

E venho nestes vercitos...
Talves sem muita cultura,
Trançar amizade pura...
C'oa lonca do nativismo,
Me embreto no Gauderismo
O mesmo que vos norteia...
Entro na mesma peleia...
Defendendo o GAUCHISMO.

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SEM DIPLOMA
Autor:Jayme Caetano Braun

Bendito aquele que estuda
porque estudar é importante,
embora o ignorante
tem sempre um santo que ajuda,
às vezes a sorte muda,
quando existe um santo forte,
cada qual procura um norte,
por isso não encabulo
- que a tava que bota culo
é a mesma que bota sorte!

Meu tetravô foi fronteiro,
meu bisavô domador,
o meu avô - alambrador
e o meu pai foi carreteiro;
a mim não sobrou dinheiro
pra cursar a faculdade,
mas tive a felicidade
graças ao nosso senhor
e me tornei payador
pra guardar a identidade!

O estudo é muito bonito
e até muito necessário,
mas este cantor primário,
cruzando o pago infinito,
continua - a trotezito,
mesmo sem ser diplomado
e me sinto conformado,
o que é meu - ninguém me toma,
pois duvido que um diploma
torne um burro advogado!

Como é lindo colar grau
num salão de faculdade,
embora essa qualidade
não transforme o bom em mau,
o Jayme Caetano Braun,
dessa linha não se afasta,
a inspiração não se gasta
nem me torna mais cruel,
eu conquistei um anel
o de gaúcho - e me basta!

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MEMÓRIA PARA UM MENINO NO ANO DOIS MIL
Autor: Aparício Silva Rillo

Eu sei que teus relvados serão verdes
Eu sei que haverá flores sobre a relva
Eu sei que escutarás canto de pássaros
e os verás entre ramas também verdes
-- um verde de outro matiz
que não aquele em que teus pés calçados
estarão proibidos de pisar.

Eu sei que haverá tanques e nos tanques
hectolitros de água verdazul,
e no claro das águas tardos peixes,
da cor de ouro alguns, prateados outros,
e estranhas rãs manchadas de amarelo
e acima delas a vitória régia,
e a graça de uma garça sobre ela.

A tanto chegará a ciência de teus dias.
Menino do Ano Dois Mil
que relva e flores e pássaros e ramas
e água verdazul e peixes coloridos
e rãs, vitória régia e gráceis garças
serão fruto do invento, do cálculo, da técnica,
da fria inteligência dos homens de seu tempo.

Tudo sintético,tudo mecânico,
Menino do Ano Dois Mil.
Totalmente transistorizado tudo e todos
-- o canto, a breve asas que tremula, a barbatana que dança, a rama que balança,
e até o vento, menino, até o vento.

Acharás os grandes parques parecidos
com paisagens que ficaram nos filmes e “slides”
que o computador, teu professor, fará rodar
na imensa tela de uma sala imensa
que se chamará, quem sabe, a Sala do Passado.

E os pássaros parecerão iguais,
os peixes parecerão iguais,
as flores parecerão iguais.
Porque terão perecido
parecerão,
mas não serão.

Tu viverás o tempo da mentira,
Menino do Ano Dois Mil.
Um número qualquer nas megalópolis
de aço polido sob um céu de chumbos.

Eu fui menino antes de ti sessenta anos
e tudo então não parecia,
era.

Era capim que era verde
quando era tempo de seivas e de verdes.
Era flor que se abria para um vôo de abelhas
quando era tempo de flor e hora de abelhas.
Era o canto do pássaro, dos pássaros
por entre ramas a coarem ventos
que galopavam como potros livres
por campos que não eram de “tartan”.

Era sanga, o arroio, era o lago, era o rio.
Era o caniço sobre as águas limpas
e na fisga do anzol o lambari de pratas.
Era na mão que o cerrava um frêmito de escamas
e um riso de dez anos que timbrava
como um címbalo de prata sob o sol.

Era meu pé descalço que pisava
as fundas trilhas que levavam gados
aos bebedouros dos arroios fundos
onde lontras ariscas mergulhavam
como um grito afundado no silêncio.

Era.
Menino do ano dois Mil,
não parecia.

Eram meus dentes a trincar nos matos
azedos de araçás, rubros de amoras,
leves de guabijús,mansas pitangas
e um ouro de laranjas que as geadas
faziam doces quando agosto vinha.

Eu mesmo fabricava meus brinquedos:
-- minha espada de tala de coqueiro, arco e flecha, minha atiradeira,
minhas facas de arcos de barril.
E aviões de duas asas e pandorgas
que eram bandeiras da infância
hasteadas no azul.

Sabes?
O céu da minha infância era limpo e azul.

Sabia versos que meu pai sabia
por haver aprendido de seu pai:
“ Rei, capitão,
soldado, ladrão.
Moça bonita
do meu coração.”

E marchava para guerras de mentira
ao compasso marcial desta quadra singela,
pisando firme; para o rei do verso
me sagrar seu primeiro capitão,
para que as moças bonitas de oito anos,
me sagrassem,também, no coração.

Tudo em meu tempo, Meu Menino, era.
E ser é muito mais que parecer.

Era, menino
o seio de minha mãe, túrgido e manso
e o leite dele que eu sorvia quente
em horas que não sabia, mas sentia.
Era a cantiga de ninar que ela cantava
e o menino que a seu canto adormecia.

Eu fui menino antes de ti sessenta anos
e tudo, então,não parecia,
era.

E era tanto
e tão profundamente,
que eu jamais imaginei um piá diferente
como tu, Meu Menino, no Ano Dois Mil.
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Gaúcho
Autor:Ruben Sofildo da Silva

Gaúcho é filho do pago
Que ama e zela esta terra
Fronteira, missões e serra,
Campanha e litoral,
Recantos do mesmo ideal,
Onde se vê o céu azul,
Os rios, a mata, a flechinha,
Mas tudo é chão farroupilha
Tudo é Rio Grande do Sul.

Gaúcho não é ser grosso
Ter botas, esporas e mango
Usar lenço chimango,
Atado frouxo ao pescoço,
E andar fazendo alvoroço,
Comprando qualquer parada,
Gaúcho é ser idealista,
Peleiar só por conquista
Em defesa da terra amada.

Gaúcho é nome e herança,
Que os bravos heróis nos legaram,
Que muito mal empregaram
Não compreendendo por certo
Gaúcho é altivo, esperto,
Espontâneo, inteligente,
Respeitador bom amigo,
Mas quando encontra o perigo,
Costuma chegar de frente.

Quem foi Bento Gonçalves?
Quem foi David Canabarro?
Não foram estátuas de barro,
Nem pobres leigos sem eira
Quem foi Pinto Bandeira?
Eu nesses versos lhe digo,
Com altivez e estoicismo,
Foram a nata do gauchismo,
Do nosso Rio Grande amigo.

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HERANÇA
Autor: Apparicio Silva Rillo

"Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Naqueles tempos, sim, naqueles tempos,sim
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Eram uma casas cálidas, solenes
sob as telhas portuguesas, maternais.
Em pálidos azuis eram pintadas
e em brancos, em ocres e amarelos.
Algumas nem mesmo tinham reboco. Na
carne dos tijolos mostravam-se nuas,
abertas em janelas que espiavam
da sombra verde para o sol das ruas.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
tinham balcões e sacadas essas casas
e úmidos porões e sótãos com fantasmas.
E tinham jasmineiros sobre os muros
e acolhedoras latrinas de madeira
disfarçadas entre as plantas dos quintais.
E laranjeiras e galos e cachorros
um barril barrigudo cheio d'água
e uma concha de lata para a sede.
Nas varandas que eram frescas e abertas
a moleza da sesta numa rede...

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
as portas eram altas
e alto o pé-direito das salas dessas casas.
Mas eram simples as pessoas que as casas abrigavam.
Os homens chamavam-se Bento, Honorato, Deoclécio,
as mulheres eram Carlinda, Emerenciana, Vicentina.
Os homens usavam barbas e picavam fumo em rama,
as mulheres faziam filhos, bordados e rosquinhas.
Os homens iam ao clube, as mulheres À missa,
e homens e mulheres aos velórios.
Morriam discretamente e ficavam nos retratos.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
a igreja tinha santos nos altares
e havia mulheres rezando ao pé do santos.
O padre usava uma batina cheia de manchas e botões,
batizava crianças, encomendava os mortos,
rezava a missa em latim: "Agnus Dei"...
e comia cordeiro gordo na mesa do intendente.
Os homens ajudavam nas obras da igreja,
mas acreditavam mais nas armas que nos santos.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os chefes eram chamados "coronéis".
Ganhavam seus galões debaixo da fumaça
em peleias a pata de cavalo,
garruchas de um tiro só e espadas de bom aço.
As mulheres plantavam flores e temperos
pois tinham mesma valia o espírito e o corpo.
Sabiam receitas de panelas fartas,
faziam velas de sebo e tachadas de doce
e de graxas e cinzas inventavam sabão.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os bois mandavam nos homens,
e por isso a vida era mansa na cidadezinha
arrodeada de ventos, chácaras e estâncias.
Os touros cumpriam devotamente o seu mister
e as vacas, pacientes,
pariam terneiros e terneiros e terneiros.
O campo engordava os bois,
as tropas de abril engordavam os homens
e os homens engordavam as mulheres.

Por isso a cidade chegou até aqui.
Por isso estamos aqui
- netos e bisnetos desses homens,
dessas mulheres, netas e bisnetas.

Por isso um berro de boi nos toca tanto
e tão profundamente.
Por isso somos guardiões de casas velhas,
almas de sesmarias e de estâncias,
paredes que suportam seus retratos.

O músculo do boi na força que nos leva.
A barba dos avós como um selo no queixo.
O doce das avós na memória da boca e nela
este responso:

- Naqueles tempos, sim, naqueles tempos...

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A Doma do Potro Baio
Autor: Balbino Marques da Rocha

E um potro baio-amarelo,
Que não pelava o lombilho,
Com cada um coromilho
De assustar um domador,
Ali estava no piquete,
Esperando algum ginete
Pra passar-lhe o maneador!

Mas tinha uma condição:
Era, depois de encilhá-lo
Deixar tão manso o cavalo
Que, palanqueado o bagual
Fosse uma china sozinha
Dar um nó num fio de linha
Na rédea atrás do bocal...

Não se enxergava um campeiro
Que agüentasse esse tirão,
Porque soltar redomão
A um potro de tal topete,
Só dá pra fazer picuinha,
Inda mais atar a linha
De trás do bocal do flete.

Mas como foi se espalhando,
A notícia do tal potro,
Se pensava num e noutro,
E as morenas como um raio,
Pois ia ser a rainha
Quem atasse o fio de linha
De atrás do bocal do baio.

Nisto alguém se levantou,
Deu de mão num buçal grosso,
Num mango cabo de osso,
Num maneador e num laço
E foi ali repontar
O pingo pra encilhar,
O nosso pardo Amigaço.

É que uma ali, cor de cuia,
China de trança cuidada,
Não quis le dar muita entrada,
E o caboclo, de soslaio,
Notou que a china estranhava
Porque ninguém se ensaiava
Pra repicar o tal baio.

Quando o pardo alevantou-se,
A chinoca estremeceu...
"Se este povo percebeu,
Virge Santa, se pareça
Que eu fui a causa de tudo,
Vou dizer ao chilenudo
Que tire isto da cabeça!"...

Mas já o índio de a cavalo,
Cruzava lá na cancela...
Se via aquela panela
De gente redemunhando...
Quando o flete disparou
Foi que a corda se cerrou
Atrás da orelha enforcando.

E com mais uns tironaços,
E mais um tino campeiro,
O bagual, como um terneiro,
Foi recebendo a carona,
A cincha juntou-le o basto,
Um pelego cor-de-pasto
E a sobrecincha de lona.

Bocal sovado a capricho,
E rematado em ponteira,
Que toda a indiada campeira
Tem a sua manha no apero,
Cada qual tem seus inventos
E até pelo nó dos tentos,
Não copeia o companheiro.

Quando orelhavam o baio,
E o Amigaço se alçou,
O povo se encomendou,
Fazendo o pelo-sinal...
Mas o Amigaço, mui calmo,
Deu um nó na rédea, a um palmo
Pra cá das cruz do bagual!

E é melhor nem mais contar...
O baio pateou na orelha,
Pulando um monte de telha
Que ali estava pela frente,
E o pardo saiu tenteando,
Chapéu na mão, gineteando,
Aos olhos daquela gente.

Dali um pouquito, riscou
Campo fora se perdendo,
A indiada foi se benzendo,
Rezando a Deus com fervor,
Só bombeando a polvadeira
Daquela louca carreira
Por detrás dum corredor!

Passou-se mais um bocado
De ânsia desengrenada...
Lá adiante, junto da estrada,
No rebordo de um capão,
Amadrinhador do lado
- O potro vinha estonteado,
Num trote de redomão! ...

Apeou-se meio por longe,
Pra não judiar do cavalo,
Pois não queria surrá-lo...
E o amarrou num moirão,
Pedindo prá caboclinha
Que no mais atasse a fita
Na rédea do redomão!

A moça toda risonha
Foi chegando pra o cavalo,
E no tentar alisá-lo
O baio lambeu-lhe a manga;
E depois de atar a linha,
Considerou-se Rainha,
Vermelha como pitanga!

Virando para o Amigaço,
Mesurou-se agradecendo...
Mas o pardo foi dizendo:
"M'ia dama, não foi o trato...
O potro gostou da linha,
Perdoe se foi a rainha
Por este preço barato!

Não precisa agradecer,
Que já me acho bem pago,
Naquele bocal eu trago,
Atado, o fio da m'ia sorte...
Faz de conta que é uma história...
Não guarde na sua memória
Este índio vago e sem norte!...

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O Meu Cavalo Crioulo
Autor: Dirceu Pires Terres

Gaúcho velho largado
pede aqui um intervalo
para decantar seu cavalo,
seu pingaço de renome,
que não teme lobisome,
nem de cucharra pealo.

Agora vou decantá-lo:
passo a faca no rebolo,
manuseio o fumo em rolo,
vou soltando a versalhada
inda que meio estropiada
pra elogiar o Crioulo.

É cavalo pra peão,
de resistência e alento,
mui barato o seu sustento,
servindo para soldado,
sabe dormir no molhado,
agüenta firme o relento.

É de pêlo bem variado:
gateado, baio, lobuno,
zaino, rosilho, cebruno,
mouro, chita, também é,
e às vezes sai pangaré,
buenaço mesmo reiúno.

Tordilho salino é Crioulo
de muita lei pra nadar,
bicho bueno pra apartar...
não quero pêlo tostado
nem tordilho apatacado...
Tobiano só pra olhar...

Um e quarenta de alçada
é o tamanho especial,
com mais de cinco é o ideal.
Um e cincoenta é grandão,
dando um tipo almanjarrão
só pra cruzar banhadal.

Gosto de "Peito de pomba"
com costela bem arqueada:
agüenta bem na tropeada,
porque tem pulmão de ferro.
Se o guasca le dá o "berro",
tem o "folgo" pra arrancada.

Cavalo de muita "massa"
com muito pêlo na pata,
pisando em cima ns mata:
não agüenta o dia inteiro
só serve para pipeiro
e ao guasca sempre maltrata.

Esse nunca foi Crioulo...
Na certa que é de tração,
não vale mais que um tostão:
é matungo bem sotreta,
não se mete de paleta,
chora pra ser dormilão.

Crioulo com muito "osso"
não pode pular em valo
precisa muito esporeá-lo
para isso poder fazer
e o mango firme meter,
para conseguir passá-lo.

Para que serve o güesudo?
Mesmo assim ao batizá-lo,
cabe sempre rechaçá-lo,
padrillo não deve ser -
e ninguém irá comer
um caracu de cavalo!

Para escolher o bom pingo
aqui les dou instrução:
olhe bem o seu garrão,
busque a corda destacada,
que a pata seja aprumada,
e bem à mostra o tendão.

"Cáalo" de bom movimento
olho vivo se requer,
boa anca se faz mister.
O gaúcho e tarimbeiro,
que se sai sempre folheiro
pra escolher pingo e mulher!

Não serve a canela fina,
com muito pouco tendão:
falta força no garrão,
quase sempre anda caindo,
pior que vaca parindo
por cima de qualquer chão.

Prefere o "casco de copo",
nunca o casco de panela:
falta força na canela,
é um chaira pra tropeçar,
se não sabe sair dela.

A cabeça do Crioulo
deve ser piramidal,
se ajusta bem ao boçal,
é mui linda de se ver
e sempre de requerer
num cavalo especial.

Orelha de burro - não!
"Cabano" de desprezar:
abana, mesmo ao trotear...
Prefiro orelha em tesoura
cavalo que não desdoura
e sabe se destacar.

A crina deve ser larga...
Cola fina: suspeitar!
Somente buena pra atar,
para "iludir o freguês",
que é do Árabe ou Inglês
que pode se originar.

Foi esse cavalo bueno,
trazido por espanhóis
e, depois de muitos sóis,
por aqui se reproduziu
e o continente invadiu
qual praga de caracóis.

E a pastar sempre ao léu,
caçado pela indiada,
para servir de montada,
por vezes carne les deu,
pois o índio é mui "judeu"
e aos outros nem deixa nada!

Tendo o número aumentado,
foi virando chimarrão...
Cola arrastando no chão,
procriou ao "Deus dará",
junto à onça e ao guará,
a correr pelo rincão...

Agüentando as intempéries,
muita chuva, muito frio,
minuano, sede no estio,
foi formando o seu valor:
pra domar "dava calor"
e afrouxar nunca se viu!

Foi assim que ele venceu
as forças da Natureza,
pela sua fortaleza
pra dar vida ao Continente,
que tudo deve ao valente,
que é ardor, força e beleza!

A liberdade que tenho
- eu e todo o bom gaúcho -
despidos de qualquer luxo,
devemos toda ao Crioulo,
que foi o nosso consolo,
para "ag%uentá o repuxo"!

Nas cruas guerras passadas,
tão bela parte tomou
que o guasca as glórias ligou
ao valor dessa montada,
pois até de madrugada
o pingo, firme, agüentou.

Foi assim em "Trinta e Cinco",
na campanha Farroupilha:
o Crioulo na coxilha,
só tendo capim no bucho.
Foi comparsa do gaúcho
da argola até a presilha.

O mesmo em "Noventa e Três"
ou em "Trinta" ou noutra data.
O gaúcho não maltrata
mas, se querem maltratá-lo,
se tentarem "esporeá-lo",
ele logo se "desata"!

Em "Vinte e Três" também foi
um companheiro ideal.
Na serra, no pajonal,
ele só se agüentou:
muito mestiço afrouxou,
por não ter valor igual!

Poderia ir muito longe,
descrevendo o meu cavalo...
Mas deixo aqui de exaltá-lo,
como pingo do gaúcho,
que sabe "aguëntá repuxo",
de coração adorá-lo.

Por isso remato a "trança",
antes que saia algum "bolo",
embora fique o consolo
de tê-lo cantado assim:
um pingo que não tem fim
- O meu cavalo Crioulo!

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Chimarrão
Autor: Glaucus Saraiva


Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata.
Tens o perfume da mata
Molhada pelo sereno.
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão em mão
Traduz, no meu chimarrão,
Em sua simplicidade,
A velha hospitalidade
Da gente do meu rincão.

Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística beberagem,
Do feiticeiro charrua,
E o perfil da lança nua,
Encravada na coxilha,
Apontando firme a trilha,
Por onde rolou a história,
Empoeirada de glórias,
De tradição farroupilha.

Em teus últimos arrancos,
Ao ronco do teu findar,
Ouço um potro a corcovear,
Na imensidão deste pampa,
E em minha mente se estampa,
Reboando nos confins ,
A voz febril dos clarins,
Repinicando: "Avançar"!
E então eu fico a pensar,
Apertando o lábio, assim,
Que o amargo está no fim,
E a seiva forte que eu sinto,
É o sangue de trinta e cinco,
Que volta verde pra mim.

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Apenas Saudades
Autor: Ieda Brock

Ah, que saudades que dá na gente
Quando se acorda cedito e não se escuta o
Galo cantar, o cusco a latir e as vacas a berrar.

Saudades de ver o terneirinho pulando faceiro
Em roda de sua mãe.

Saudades do fogão de lenha que de longe
Se vê a fumaça se perder no ar.

Daquele café gostoso do bule preto
Da broa de milho com manteiga e chimia
E as vezes até torresmo pra quem queria.

Ah, saudades de andar na geada sentindo os
Estalinhos do gelo
De parecer que está fumando
De ficar com lábios e bochechas vermelhos
E voltar pra casa correndo
Sentar em um banquito
Na frente do fogão até se esquentar.

Saudades do chimarrão antes do meio dia
Dos bolinhos de sonhos com canela nos dias de chuva.

Saudades do entardecer
Dos animais se achegando pro galpão
Dos banhos rápidos por causa do frio.

Ah, e que saudades do pijama de pelúcia cheio de bichinhos
Da sopa com bastante tempero levantando fumaça.

Saudades da oração do Santo Anjo
Saudades de uma noite tranqüila
Ouvindo sons de grilo e coruja cantar.

Saudades,
Apenas saudades.

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Deixando o Pago
Autor:João da Cunha Vargas

Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo,
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão,
Troquei as rédeas de mão,
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão.

E a trotezito no mais,
Fui aumentando a distância
Deixando o rancho da infância
Coberto pela neblina;
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china.

Sempre gostei da morena,
É minha cor predileta,
Da carreira em cancha reta,
Dum truco numa carona,
Dum churrasco de mamona,
Na sombra do arvoredo,
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona.

Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor,
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar,
Tive ganas de chorar
Ao ver o meu rancho tapera.

Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo,
Anunciando a madrugada,
Dormir na beira da estrada
Num sono longo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada.

O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho,
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada;
Era linda a madrugada,
A estrla d'alva saía
No rastro das três marias,
Na volta grande da estrada.

Era um baile - um casamento
Quem sabe algum batizado,
Eu não era convidado,
Mas tava ali de cruzada,
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago,
Cachaça pra tomar um trago,
Carpeta pra uma carteada.

Falam muito no destino,
Até nem sei se acredito,
Eu fui criado solito,
Mas sempre bem prevenido,
índio do queixo torcido,
Que se amansou na experiência.
Eu vou voltar pra querência,
Lugar onde fui parido.

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No Bolicho
Autor: Apparicio Silva Rillo

Traga de vez a garrafa,
bolicheiro! me despacha,
que hoje no mais se emborracha
quem nunca se emborrachou.
Quero beber no gargalo
para esquecer o pialo
que o tal de amor me atirou.

Sou índio duro de queda
mas fui pegado de jeito.
Bateu-me a argola no peito
e ali no mais me planchei.
Sempre fui solto de pata
mas nessa volteada ingrata
num tacuru tropecei!

Sucede que eu não sabia
quanta manha se requer
pra se correr com mulher
na cancha reta do amor.
Desci confiado pra raia...
Perdi pro rabo de saia
sem sair do partidor!

Caí no tiro de laço
de um olhar de china atrevida,
que embuçalou minha vida
na armada negra das tranças,
pra depois de ter-me preso
marcar-me com seu desprezo
na picanha da esperança.

Desprezo não há quem cure,
não há remédio que impeça,
não há reza, nem promessa
que lhe conserte o estrago.
Por isso, seu bolicheiro,
pra aparceirar o primeiro
ponha no mais outro trago!

 
 
 
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